Tecnologia

Algoritmos, pensamento binário e o beco sem saída

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Se você é um jornalista, comunicador, sociólogo ou analista político, em algum momento nos últimos três ou quatro anos, provavelmente parou para refletir sobre o acirramento de ânimos cada vez mais presente nas discussões e exposições pessoais nas redes sociais. No Brasil, experimentamos esse fenômeno com maior intensidade nas eleições presidenciais de 2014. E ele de alguma forma acabou sendo associado ao momento político delicado, supostamente enviesado por antagonismos ideológicos. Chegou-se a atribuí-lo mesmo a um efeito dominó de insatisfação popular, que começara um ano antes, nas manifestações de junho de 2013.

Se servia para o cenário brasileiro, isso não poderia explicar, no entanto, o fenômeno similar que aconteceria a seguir em outras partes do mundo. O Brexit… A improvável eleição de Donald Trump… E não, não digo isso do ponto de vista das escolhas em si, mas da FORMA como as pessoas se agarraram a essas escolhas. Da voracidade com a qual passaram a defendê-las. Mais ainda, embebidas num caldo turvo que acabou ganhando nomes pós-modernos, como pós-verdade, fakenews, como se fossem necessárias novas definições para a mentira e a manipulação.

Correntes de pensamento legítimas passaram a digladiar-se num território fértil onde falta conhecimento

No processo, correntes de pensamento legítimas, à esquerda ou à direita, passaram a digladiar-se num território fértil onde falta conhecimento, conteúdo e contexto, mas sobra a ironia rasa, baseada na exacerbação dos defeitos do outro, na caricatura da opinião alheia. Chegamos à era da informação fácil, ao ápice do cidadão broadcaster; gerador de conteúdo, tanto quanto consumidor. O que era para se transformar numa maravilha proporcionada pela tecnologia virou na essência algo tão superficial e desolador que sua melhor manifestação visual ganhou o nome de meme…

É bem verdade que as ideias não nasceram do vácuo. Elas já estavam aí. Apenas permeavam espaços de silêncio que os inocentes úteis evitavam ultrapassar. E evitavam por conhecerem a própria inaptidão para juízos contextualizados. Por vergonha de exporem suas entranhas concatenadas a partir de lógicas desestruturadas.

Mas o que houve para que os espaços de silêncio se rompessem dando lugar à atual gritaria insuportável de intolerância e agressividade? Apenas uma coisa – uma das grandes – mudou e vem mudando tudo nos últimos anos: a Internet. Mas não qualquer Internet. A Internet da conexão permanente, do celular conectado, do acesso fácil que liga em redes (sociais) indivíduos de todo o planeta e faz com que eles se agrupem em grupos segundo seus interesses, gostos, opiniões e similaridades.

Por acaso a vilania acabou sendo atribuída ao Facebook, por sua natureza de socialização dos contatos; mas poderia ter acontecido com qualquer um de seus antecessores ou concorrentes. Como de fato acontece, nas longas e infrutíferas discussões de todo espaço aberto a comentários da Internet.

O fenômeno foi abordado a partir do conceito que ficou conhecido como filtros-bolha: a opção dos indivíduos por determinados conteúdos e opiniões apenas reforçaria aquilo que eles já sentem, fazem ou pensam. Nas plataformas digitais, isso cria filtros que retroalimentam as mesmas escolhas, criando um círculo vicioso. Os usuários são menos expostos a pontos de vista conflitantes com os seus, e por isso são isolados intelectualmente em suas bolhas de informação e cultura.

No entanto, o problema é bem maior. Os filtros-bolha são apenas um efeito, não a causa.

Primeiro, é preciso avaliar qual foi a grande mudança de fato trazida pela Internet nos últimos, digamos, 10 anos. Não foi comunicação rápida, que já existia desde o rádio e a TV. Ou a interatividade, que surgiu praticamente junto com a Web, há 20 anos. Tampouco as redes e mídias sociais, que já eram redes sociais quando duas ou mais pessoas se reuniam em roda de conversa ou numa assembleia sindical. Elas apenas não eram digitais.

Os filtros-bolha são apenas um efeito, não a causa.

Provavelmente não foi qualquer uma dessas mudanças. A verdadeira novidade da socialização em rede, na era digital, é que esse processo passou a ser organizado não por pessoas, por mediadores, mas por algoritmos!

Um dos primeiros a identificar o problema foi o ativista político estadunidense Eli Pariser, autor de “The Filter Bubble”. Ele é o co-fundador e chefe executivo da Upworthy, presidente da MoveOn.org e co-fundador da Avaaz.org.

Cada vez mais, nas plataformas digitais, as interações humanas, das nossas relações de amizade, interesses de consumo a avaliações de crédito e de saúde, têm sido administradas por porções de códigos e peças equivalentes a programas de computador. Eles determinam exatamente o quê e quando vamos ver.

Os anônimos criadores desses algoritmos, certamente bastante versados em linguagens de programação, matemática e ciências correlatas, atualmente concebem-nos de tal forma pretensiosos que chegam a tentar estabelecer, por antecipação, que notícia mais nos interessará, com quem potencialmente teremos mais afinidade ou até que prato provavelmente vamos preferir num restaurante. Mas as ciências das relações humanas, da política à sociologia, não integram o código. São reconhecidos apenas os padrões.

Agora pare e pense sobre como trabalham os computadores. Por mais complexos que sejam, todo hardware e software até hoje concebido foi programado para reduzir as unidades computacionais a zeros e uns. Ainda não temos, em aplicações práticas, computadores quânticos, lidando com estados intermediários. Todo o fluxo de dados atual em algum momento é reduzido ao código binário. Essa é a língua nativa dos computadores e da programação.

Não bastasse a linguagem natural das AI’s (inteligências artificiais) por trás das decisões algorítmicas, outro fator é a própria matemática. Um algoritmo atuando pode até estabelecer um leque de decisões estratificadas por probabilidades. Mas a sobreposição de algoritmos, com dezenas, centenas de cálculos para a tomada de decisões probabilísticas, fatalmente tenderá a reduzir os grupos que são objetos de decisão a um ou zero. A redução, ou o arredondamento, é essencial para análises a partir de BigData. É o equivalente à fatoração das opiniões.

Algoritmos levam à polarização e pensamento binário

Eis aí o grande problema dos nossos tempos. O acúmulo de decisões baseadas em algoritmos ao longo do tempo fará com que cada vez mais diferentes perfis psicológicos, sociais e políticos sejam agrupados em apenas dois conjuntos. Ou um indivíduo é, ou não é.

O reflexo disso é a polarização, o acirramento do pensamento binário.

Nos últimos anos, algumas pesquisas tentaram dissociar o extremismo das discussões políticas do uso de redes sociais e dos algoritmos. Foram analisadas comunidades onde apenas 20% das pessoas faziam uso regular das redes sociais ou da internet, indicando que a radicalização dos discursos ali poderia não ter influência da rede. Mas trata-se de uma afirmação pretensiosa. A influência de 20% da amostra não pode ser desprezada. Além disso, dificilmente a pesquisa conseguirá aferir a influência indireta das redes sociais, a partir dos meios de comunicação e da exposição da comunidade a notícias e posicionamentos de veículos que já enquadraram, sem saber, suas opiniões e notícias no processo algorítmico.

O acúmulo de decisões baseadas em algoritmos fará com que cada vez mais diferentes perfis sejam agrupados em apenas dois conjuntos.

Em suas palestras e análises, Pariser chama a atenção dos expectadores para a urgente necessidade de pressionarmos as grandes empresas de tecnologia para adoção de novos modelos. Uma das ideias seria o resgate da figura similar à dos editores, nos veículos de comunicação. Como curadores de conteúdo, com background cultural apropriado, diversificado, e um pensamento não binário, talvez fosse possível oferecer a um público ávido por informação, conteúdo rico o suficiente para contemplar visões mais amplas e complexas do mundo.

É uma possibilidade. Não sei se suficiente. Hoje, não só a informação de fontes confiáveis, mas TODO O CONTEÚDO produzido pelo usuário, é oferecido à aldeia global a partir de algoritmos. Talvez seja tarde ou não tenhamos mais curadores de conteúdo o suficiente. E a menos que a solução seja confiar nosso futuro a uma próxima tecnologia de IA quântica, para o futuro próximo, é provável que tenhamos entrado num beco sem saída.

*Jeferson Martinho é jornalista, CEO da Nova Onda Comunicação.

Novidades no front da propaganda política, redes sociais e ficha limpa

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Fotomontagem: Dilma, Marina e Aécio

Uma disputa de incertezas

A morte do candidato à presidência Eduardo Campos (PSB), adicionou o elemento tragédia a uma disputa eleitoral por si só repleta de incertezas e pontos cegos. No cenário nacional, um caldo peculiar de manifestações de ódio e extremismos, sobretudo externados nas redes sociais, permeava desde o início a polarização entre as chapas do PSDB e do PT. No eixo Sul-Sudeste, escorada numa espécie de classe média raivosa — auto intitulada “apolítica” ou “apartidária” — desde as manifestações de rua de junho de 2013, a situação chegou mesmo a causar uma forte tendência de queda nas posições da candidata petista à reeleição, Dilma Rousseff.

 

A mesma propagação em redes sociais causou algum estrago no desempenho do candidato tucano Aécio Neves, depois da vinculação de seu nome à construção de um aeroporto público numa propriedade de sua família em Minas Gerais.
E se por um lado as posições antagônicas dentro de sua própria chapa podem representar um empecilho ao incremento da simpatia à candidata Marina Silva (PSB) junto aos financiadores de campanha e boa parte do eleitorado antenado com as questões da política (sobretudo as que envolvem a economia), parte dessa massa tecnológica que se enxerga “apolítica” (embora milite raivosamente na internet), talvez tenda a buscar identidade com Marina, acentuando seu potencial como terceira via e as chances de uma disputa só entre mulheres no segundo turno.

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Retomada, tempo e ferramentas

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Vou tentar retomar as atualizações deste blog. Faz tempo estou ensaiando, mas ando completamente sem tempo. Agora tenho algumas ferramentas bem legais à mão. Continuo sem tempo, aliás, com menos ainda, mas quem sabe com um pouco de disciplina, aliada às ferramentas adequadas, eu consigo.
Uma destas ferramentas é meu novo brinquedo android, um Atrix, da Motorola. Se bem que é uma injustiça chamá-lo brinquedo. Com ele e comigo. Primeiro porque realmente se tem algo que faço muito pouco no celular é brincar ou jogar. Quando muito, suporto alguns minutos de Angry Birds. Além disso, o aparelho é realmente muito mais do que uma plataforma de jogos. A tela grande, de resolução surpreendente, se não necessariamente estimula, ao menos não chega a desestimular totalmente a escrita. Com a boa performance da escrita Swype, quase me faz lembrar dos bons tempos do Graffiti no Palm IIIxe. Sim, o bom e velho monocromático. Porque a partir daí, nem as telas, nem o graffiti, nem minha acuidade foram as mesmas.
A vantagem agora e que dígito apenas com os dedões 😉
O Atrix é meu segundo Android. O SO da Google me fisgou já no problemático Dext. Não pela experiência em si, que só foi melhor a partir da customização com uma rom cyanogenmod 7, mas pela promessa. Aliás, a “promessa” Motorola com sacadas geniais, mas execuções “meia-bocas”, já havia me encantado antes, com o a1200 😉
De lá pra cá, tem sido uma relação de amor e ódio: venho amando o que é possível fazer com os celulares Motorola, mas odiando o que a Motorola faz com seus aparelhos (e consequentemente com seus donos). Sim, principalmente no que tange às atualizações. Mas de certa forma, vá lá: quem acompanha o mercado sabe que o problema aflige praticamente todos os fabricantes. O grande #fail da Motorola é realmente o descaso com o consumidor brasileiro: promete atualização e volta atrás, atualiza lá fora e dá uma banana para os brasileiros. Quem sabe isso muda com a aquisição pela Google…
Bom hora já deu, né? Texto demasiado longo pra ser escrito no celular, não? Pois é, mas foi 🙂

Qualquer som do celular pelo fone bluetooth mono

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Ouvindo músicas, vídeos e podcasts pelo fone bluetooth mono

Ouvindo músicas, vídeos e podcasts pelo fone bluetooth mono

Ando me divertindo com programa para Android que permite ouvir qualquer coisa do celular usando o fone bluetooth. Chama-se BTMono e uma de suas versões é gratuita no Market. O link e o QRCode para download direto estão ao final deste post.

Antes que alguém se proponha a fazer uma correção, um aviso: não, bluetooth não foi feito para isso. Na verdade foi, mas os celulares não. A maioria dos celulares trata esses nossos bt’s baratinhos (às vezes nem tanto), chamados mono, como meio de transmissão apenas para as conversas de voz. Embora existam de fato limitações na qualidade do áudio, acho mesmo que foi um complô uma forma dos fabricantes de nos forçarem a comprar garantirem uma qualidade maior usando fones bluetooth stereos com um sistema conhecido como A2DP, que são bem mais caros.

No meu celular anterior, que era linux mas não era Android, eu conseguia isso fazendo uma gambiarra matando um processo com o BT ligado e o áudio rolando. No Dext – que, aliás, tá rodando Android 2.3.4 “Gingerbread” (viu Motorola?!), graças à rom Cyanogenmod 7 – não preciso de malabarismos. Ligo o BTMono e ponho o player a executar o que for. Bem prático.

Há uma versão paga, “premium”, que acrescenta firulas funcionalidades. A mais importante talvez seja a capacidade de rearmar após atender uma ligação (a gratuita não faz isso). Por um US$ 1, se você usar muito o fone, talvez valha a compra. Não é exatamente o meu caso. Ainda.

QRCode para download do BTMono direto no celular

Notebooks BBBs: básicos, bons e baratos

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Há cerca de trinta dias aproveitei uma oferta do hipermercado Extra e mudei meu hardware. A idéia era ampliar a quantidade de espaço em disco e melhorar um pouco o desempenho. Não sou um “gamer”, ávido por recursos 3D em uma supermáquina, mas algumas características da antiga máquina, um CCE básico com processador Celeron, já estavam pedindo reforço.

Hoje em dia a oferta de notebooks de baixo custo, sobretudo de três empresas — CCE, Positivo e Sim — é muito grande. E meu último notebook me fez perder definitivamente o preconceito em relação às máquinas baratas dessas marcas: o desempenho, proporcionalmente às suas configurações, não foi lá muito diferente de um Acer e um HP anteriores. (mais…)

Wikileaks talvez seja a prova que Stallman não exagerou

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Richard Stallman

Richard Stallman, por Gisleh, no Flickr

Quando Richard Stallman, guru xiita do software livre, diz que usar o Chrome OS (ou qualquer sistema onde todos os dados do usuário estejam nas núvens) é uma estupidez, talvez ele não tenha dito um completo exagero. A maior prova disso é provavelmente a perseguição do governo norte americano ao site Wikileaks e seu fundador, Julian Assange.

Mas o que tem a ver o Wikileaks e a computação na nuvem? Nada. Os documentos, que têm cópia offline, físicas, podem migrar de um servidor para outro, podem ganhar centenas, talvez milhares de “espelhos”, justamente porque não se apoiam numa solução centralizada, do tipo caixa preta.

Em última análise, é esse tipo de solução que o Google – ou qualquer outro sistema de “nuvem” – vai prover. E não há garantias de que um sistema desse, em caso de contenda legal, não sucumbirá à pressão de um governo ou de alguma corporação obscura.

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  • dezembro 2017

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