Política

Algoritmos, pensamento binário e o beco sem saída

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Se você é um jornalista, comunicador, sociólogo ou analista político, em algum momento nos últimos três ou quatro anos, provavelmente parou para refletir sobre o acirramento de ânimos cada vez mais presente nas discussões e exposições pessoais nas redes sociais. No Brasil, experimentamos esse fenômeno com maior intensidade nas eleições presidenciais de 2014. E ele de alguma forma acabou sendo associado ao momento político delicado, supostamente enviesado por antagonismos ideológicos. Chegou-se a atribuí-lo mesmo a um efeito dominó de insatisfação popular, que começara um ano antes, nas manifestações de junho de 2013.

Se servia para o cenário brasileiro, isso não poderia explicar, no entanto, o fenômeno similar que aconteceria a seguir em outras partes do mundo. O Brexit… A improvável eleição de Donald Trump… E não, não digo isso do ponto de vista das escolhas em si, mas da FORMA como as pessoas se agarraram a essas escolhas. Da voracidade com a qual passaram a defendê-las. Mais ainda, embebidas num caldo turvo que acabou ganhando nomes pós-modernos, como pós-verdade, fakenews, como se fossem necessárias novas definições para a mentira e a manipulação.

Correntes de pensamento legítimas passaram a digladiar-se num território fértil onde falta conhecimento

No processo, correntes de pensamento legítimas, à esquerda ou à direita, passaram a digladiar-se num território fértil onde falta conhecimento, conteúdo e contexto, mas sobra a ironia rasa, baseada na exacerbação dos defeitos do outro, na caricatura da opinião alheia. Chegamos à era da informação fácil, ao ápice do cidadão broadcaster; gerador de conteúdo, tanto quanto consumidor. O que era para se transformar numa maravilha proporcionada pela tecnologia virou na essência algo tão superficial e desolador que sua melhor manifestação visual ganhou o nome de meme…

É bem verdade que as ideias não nasceram do vácuo. Elas já estavam aí. Apenas permeavam espaços de silêncio que os inocentes úteis evitavam ultrapassar. E evitavam por conhecerem a própria inaptidão para juízos contextualizados. Por vergonha de exporem suas entranhas concatenadas a partir de lógicas desestruturadas.

Mas o que houve para que os espaços de silêncio se rompessem dando lugar à atual gritaria insuportável de intolerância e agressividade? Apenas uma coisa – uma das grandes – mudou e vem mudando tudo nos últimos anos: a Internet. Mas não qualquer Internet. A Internet da conexão permanente, do celular conectado, do acesso fácil que liga em redes (sociais) indivíduos de todo o planeta e faz com que eles se agrupem em grupos segundo seus interesses, gostos, opiniões e similaridades.

Por acaso a vilania acabou sendo atribuída ao Facebook, por sua natureza de socialização dos contatos; mas poderia ter acontecido com qualquer um de seus antecessores ou concorrentes. Como de fato acontece, nas longas e infrutíferas discussões de todo espaço aberto a comentários da Internet.

O fenômeno foi abordado a partir do conceito que ficou conhecido como filtros-bolha: a opção dos indivíduos por determinados conteúdos e opiniões apenas reforçaria aquilo que eles já sentem, fazem ou pensam. Nas plataformas digitais, isso cria filtros que retroalimentam as mesmas escolhas, criando um círculo vicioso. Os usuários são menos expostos a pontos de vista conflitantes com os seus, e por isso são isolados intelectualmente em suas bolhas de informação e cultura.

No entanto, o problema é bem maior. Os filtros-bolha são apenas um efeito, não a causa.

Primeiro, é preciso avaliar qual foi a grande mudança de fato trazida pela Internet nos últimos, digamos, 10 anos. Não foi comunicação rápida, que já existia desde o rádio e a TV. Ou a interatividade, que surgiu praticamente junto com a Web, há 20 anos. Tampouco as redes e mídias sociais, que já eram redes sociais quando duas ou mais pessoas se reuniam em roda de conversa ou numa assembleia sindical. Elas apenas não eram digitais.

Os filtros-bolha são apenas um efeito, não a causa.

Provavelmente não foi qualquer uma dessas mudanças. A verdadeira novidade da socialização em rede, na era digital, é que esse processo passou a ser organizado não por pessoas, por mediadores, mas por algoritmos!

Um dos primeiros a identificar o problema foi o ativista político estadunidense Eli Pariser, autor de “The Filter Bubble”. Ele é o co-fundador e chefe executivo da Upworthy, presidente da MoveOn.org e co-fundador da Avaaz.org.

Cada vez mais, nas plataformas digitais, as interações humanas, das nossas relações de amizade, interesses de consumo a avaliações de crédito e de saúde, têm sido administradas por porções de códigos e peças equivalentes a programas de computador. Eles determinam exatamente o quê e quando vamos ver.

Os anônimos criadores desses algoritmos, certamente bastante versados em linguagens de programação, matemática e ciências correlatas, atualmente concebem-nos de tal forma pretensiosos que chegam a tentar estabelecer, por antecipação, que notícia mais nos interessará, com quem potencialmente teremos mais afinidade ou até que prato provavelmente vamos preferir num restaurante. Mas as ciências das relações humanas, da política à sociologia, não integram o código. São reconhecidos apenas os padrões.

Agora pare e pense sobre como trabalham os computadores. Por mais complexos que sejam, todo hardware e software até hoje concebido foi programado para reduzir as unidades computacionais a zeros e uns. Ainda não temos, em aplicações práticas, computadores quânticos, lidando com estados intermediários. Todo o fluxo de dados atual em algum momento é reduzido ao código binário. Essa é a língua nativa dos computadores e da programação.

Não bastasse a linguagem natural das AI’s (inteligências artificiais) por trás das decisões algorítmicas, outro fator é a própria matemática. Um algoritmo atuando pode até estabelecer um leque de decisões estratificadas por probabilidades. Mas a sobreposição de algoritmos, com dezenas, centenas de cálculos para a tomada de decisões probabilísticas, fatalmente tenderá a reduzir os grupos que são objetos de decisão a um ou zero. A redução, ou o arredondamento, é essencial para análises a partir de BigData. É o equivalente à fatoração das opiniões.

Algoritmos levam à polarização e pensamento binário

Eis aí o grande problema dos nossos tempos. O acúmulo de decisões baseadas em algoritmos ao longo do tempo fará com que cada vez mais diferentes perfis psicológicos, sociais e políticos sejam agrupados em apenas dois conjuntos. Ou um indivíduo é, ou não é.

O reflexo disso é a polarização, o acirramento do pensamento binário.

Nos últimos anos, algumas pesquisas tentaram dissociar o extremismo das discussões políticas do uso de redes sociais e dos algoritmos. Foram analisadas comunidades onde apenas 20% das pessoas faziam uso regular das redes sociais ou da internet, indicando que a radicalização dos discursos ali poderia não ter influência da rede. Mas trata-se de uma afirmação pretensiosa. A influência de 20% da amostra não pode ser desprezada. Além disso, dificilmente a pesquisa conseguirá aferir a influência indireta das redes sociais, a partir dos meios de comunicação e da exposição da comunidade a notícias e posicionamentos de veículos que já enquadraram, sem saber, suas opiniões e notícias no processo algorítmico.

O acúmulo de decisões baseadas em algoritmos fará com que cada vez mais diferentes perfis sejam agrupados em apenas dois conjuntos.

Em suas palestras e análises, Pariser chama a atenção dos expectadores para a urgente necessidade de pressionarmos as grandes empresas de tecnologia para adoção de novos modelos. Uma das ideias seria o resgate da figura similar à dos editores, nos veículos de comunicação. Como curadores de conteúdo, com background cultural apropriado, diversificado, e um pensamento não binário, talvez fosse possível oferecer a um público ávido por informação, conteúdo rico o suficiente para contemplar visões mais amplas e complexas do mundo.

É uma possibilidade. Não sei se suficiente. Hoje, não só a informação de fontes confiáveis, mas TODO O CONTEÚDO produzido pelo usuário, é oferecido à aldeia global a partir de algoritmos. Talvez seja tarde ou não tenhamos mais curadores de conteúdo o suficiente. E a menos que a solução seja confiar nosso futuro a uma próxima tecnologia de IA quântica, para o futuro próximo, é provável que tenhamos entrado num beco sem saída.

*Jeferson Martinho é jornalista, CEO da Nova Onda Comunicação.

Razões para você ter medo da redução da maioridade penal

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Um dos aspectos mais preocupantes no debate sobre a redução da maioridade penal é o fato de que as pessoas estão se posicionando de um lado ou de outro a partir de argumentos prontos, pasteurizados por uma imprensa sensacionalista que busca audiência transformando a tragédia diária num espetáculo de horror. Mas você realmente parou para pensar sobre o tema, de forma calculada?
É curioso como a grande mídia neste caso tem um papel importante, embora não assumido, na condução das opiniões a favor da redução da maioridade penal. O sensacionalismo depende de emoção e, de fato, sob essa condição, é compreensível que qualquer notícia de crime cometido por menor cause comoção e sentimento de revolta no “cidadão de bem”.
Mas extraindo-se o apelo emotivo dessa bandeira, há de fato razões objetivas para defender a redução da maioridade penal? Ao pensar analítico, é quase certo que não. Mas não pelas mesmas razões que deixam raivosos aqueles que logo lançam mão do argumento infantil tradicional “está com dó, leva pra casa”, ou “direitos humanos para humanos direitos” e que tais. As razões são bem mais viscerais.
Qual caso a televisão vai mostrar sem parar?

Quem vira notícia? (Crédito: www.desajustado.org)

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Marketing não eleitoral para ganhar eleições

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Urna_eletronica

 

“Vemos que toda cidade é uma espécie de comunidade, e toda comunidade se forma com vistas a algum bem, pois todas as ações de todos os homens são praticadas com vistas ao que lhes parece um bem; se todas as comunidades visam a algum bem, é evidente que a mais importante de todas elas e que inclui todas as outras tem mais que todas este objetivo e visa ao mais importante de todos os bens; ela se chama cidade e é a comunidade política” (Aristóteles, “Política”, 1252ac).

A Política anda em baixa no conceito do brasileiro. Alvo de toda sorte de ataques, alguns merecidos, outros não, a classe política está acuada, preocupada. E engana-se quem acredita que esse efeito recaia sobre uma ideologia a ou b. No final, o conceito de Política, que é repetidamente dita como a mais nobre das atividades humanas, é quem sai chamuscado. E, por tabela, perde-se o entendimento aristotélico de que a política, exercida pelo “animal político” homem, visa o bem.

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Novidades no front da propaganda política, redes sociais e ficha limpa

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Fotomontagem: Dilma, Marina e Aécio

Uma disputa de incertezas

A morte do candidato à presidência Eduardo Campos (PSB), adicionou o elemento tragédia a uma disputa eleitoral por si só repleta de incertezas e pontos cegos. No cenário nacional, um caldo peculiar de manifestações de ódio e extremismos, sobretudo externados nas redes sociais, permeava desde o início a polarização entre as chapas do PSDB e do PT. No eixo Sul-Sudeste, escorada numa espécie de classe média raivosa — auto intitulada “apolítica” ou “apartidária” — desde as manifestações de rua de junho de 2013, a situação chegou mesmo a causar uma forte tendência de queda nas posições da candidata petista à reeleição, Dilma Rousseff.

 

A mesma propagação em redes sociais causou algum estrago no desempenho do candidato tucano Aécio Neves, depois da vinculação de seu nome à construção de um aeroporto público numa propriedade de sua família em Minas Gerais.
E se por um lado as posições antagônicas dentro de sua própria chapa podem representar um empecilho ao incremento da simpatia à candidata Marina Silva (PSB) junto aos financiadores de campanha e boa parte do eleitorado antenado com as questões da política (sobretudo as que envolvem a economia), parte dessa massa tecnológica que se enxerga “apolítica” (embora milite raivosamente na internet), talvez tenda a buscar identidade com Marina, acentuando seu potencial como terceira via e as chances de uma disputa só entre mulheres no segundo turno.

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O mensalão e a armadilha ética

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redimensionaA-209x300Eu li boas partes da Ação Penal 470. Vários extratos, íntegras, resumos, anexos que circularam nos mais diversos meios. Não, não li os autos na plenitude. Mas tive acesso a bastante material. Me ative demoradamente aos argumentos de acusação, defesa e embasamento de decisões. Assisti às (espetaculares) sessões da Corte, o Supremo Tribunal Federal. E, fundamentalmente, eu conheço profundamente como funciona a máquina política. Por isso contínuo perplexo com o desfecho do processo que acabou chamado “mensalão”.

Quem pesquisou um pouco mais a respeito, logo percebe que a alcunha “mensalão” fez dar ao caso um sentido que até o final não restou provado. Sedento por justiça, cansado de políticos corruptos e de saco cheio de ser feito de palhaço porque tudo acaba sempre “em pizza”, o brasileiro médio fala e reproduz o termo “mensalão” sem verdadeiramente saber o que significaria: a alegação de compra de votos, sistemática, no Congresso, com dinheiro público supostamente desviado por meio de corrupção.

 

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O novo Marketing Eleitoral nos novos tempos da Lei da Ficha Limpa

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A chamada Lei da Ficha Limpa, como ficou conhecida a Lei Complementar 135/2010, transformou as eleições municipais de 2012 num campo de batalha judicial. Conquanto a determinação da aplicabilidade ou não da lei para um candidato seja um critério exclusivo da Justiça, a nova legislação teve um impacto definitivo no planejamento e execução de todo o marketing das campanhas eleitorais.

Dado o alto número de candidatos com problemas de rejeição de contas e outros processos que fizeram deles alvos da aplicação da Lei da Ficha Limpa, diversas cidades tiveram processos eleitorais bastante complicados, dependendo de decisão judicial para o prosseguimento de cada etapa da campanha.

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“Eleitor de malandro”

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O folclore (e o machismo) brasileiro criou, no passado, uma figura de linguagem discriminatória que vez ou outra se pode ouvir até nos dias atuais, apesar da Lei Maria da Penha: é a “mulher de malandro”. Eternizada na voz de Francisco Alves, a mulher de malandro sofria nas mãos do parceiro, do qual não conseguia se separar. Era exposta a toda sorte de humilhações. Naquela época, malandro tinha uma conotação diferente. Não era bandido. Era o preguiçoso, que não provia o sustento da casa. O boêmio que curtia a vida nos bares; homem de muitas mulheres, que não cumpria com suas obrigações para com o lar ou a família. E, apesar disso, suas parceiras, oficiais ou amantes, não conseguiam deixá-lo.
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Wikileaks talvez seja a prova que Stallman não exagerou

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Richard Stallman

Richard Stallman, por Gisleh, no Flickr

Quando Richard Stallman, guru xiita do software livre, diz que usar o Chrome OS (ou qualquer sistema onde todos os dados do usuário estejam nas núvens) é uma estupidez, talvez ele não tenha dito um completo exagero. A maior prova disso é provavelmente a perseguição do governo norte americano ao site Wikileaks e seu fundador, Julian Assange.

Mas o que tem a ver o Wikileaks e a computação na nuvem? Nada. Os documentos, que têm cópia offline, físicas, podem migrar de um servidor para outro, podem ganhar centenas, talvez milhares de “espelhos”, justamente porque não se apoiam numa solução centralizada, do tipo caixa preta.

Em última análise, é esse tipo de solução que o Google – ou qualquer outro sistema de “nuvem” – vai prover. E não há garantias de que um sistema desse, em caso de contenda legal, não sucumbirá à pressão de um governo ou de alguma corporação obscura.

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Recuperando e atualizando o blog

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Depois de alguns meses (ou anos?!) planejando (e combatendo a preguiça!), tomei vergonha na cara e atualizei o motor do blog. Minha intenção era por prá rodar no WordPress, que tenho usando como plataforma em alguns projetos profissionais, mas tinha muito a perder na migração. De links permanentes a comentários, passando pelo skin, atualizar na unha ia dar muito trabalho. Fiquei no b2evolution mesmo. O skin é que não teve jeito. Já foi seu prazo, que o Universo o receba de volta como energia… 😉

De b2evo para b2evo foi bem tranquilo. Nenhuma ocorrência. Mas quem quiser ainda se aventurar a trocar o b2evo para WordPress, sugiro uma leitura aos textos do Blog do Vladimir Campos no Linux & Asterisk e neste FAQ do codex do WordPress . Aliás, o post do Vladimir Campos foi meio que o meu inspirador nesta jornada 🙂

No entanto, nenhuma das soluções menos traumáticas descritas nos tutoriais deles me serviu. Nem mesmo a importação por RSS, adaptada por um dos scripts para varrer diretamente o site ao invés de usar um arquivo de rss, como a nativa do WordPress.

De qualquer forma, tá feito. Agora faltam apenas alguns ajustes e voltar a postar conteúdo, obviamente 😉

Diploma de jornalismo: STF escreve torto, por linhas certas…

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Torto por linhas certas...Desde a faculdade, cursada na base do arrocho e do sacrifício, sou contra a exigência do diploma para o exercício da profissão de jornalista. Sim, a minha profissão. Era antes uma opinião mais empírica que filosófica. Afinal, quando precisei de um emprego, meu primeiro, bati na porta de um jornal em minha cidade. Jornal pequeno de fato, mas o maior da região. Era uma vaga de “repórter e redator”. O anúncio estava nas páginas de classificados do próprio veículo. “Paga-se proporcional à capacidade”, dizia; lembro-me até hoje. Aos 17 anos, eu nem sabia que era preciso um diploma. Na entrevista, uma senhora muito simpática e falante — a editora — depois de perguntar minha idade e retrucar que “obviamente você não é formado, né?”, como se precisasse da resposta, deu-me a chance de escrever um texto. Ao me sentar à frente da máquina de escrever (sim!), confessei que também não tinha curso de datilografia. Com a paciência de um editor com um jornal diário para fechar e uma redação composta de apenas mais dois profissionais, ela ainda teve que explicar que aquilo que eu faria era um “copydesk”, “que é reescrever um texto com suas palavras”, e me mostrou o que era e como usar aquela folha pautada, a lauda, que até hoje é parâmetro de produção de texto em algumas redações (obviamente, convertida em “número de caracteres” do editor de textos). Também me lembro do assunto do “copydesk”: uma matéria do jornal sindical “Folha Bancária” onde informava-se que prosseguiam sem acordo as negociações em torno da campanha salarial dos bancários. Eu precisei de vinte minutos para escrever uma lauda. Acho que ela percebeu que os primeiros dez minutos gastei aprendendo a usar a máquina de escrever. Quando entreguei, incrédula, ela ironizou: “mas você copiou de onde? Trouxe pronto?”.

O texto foi publicado no dia seguinte e eu fiquei com a vaga, disputada com outras duas jornalistas formadas. O fato é que se havia uma coisa que eu sabia fazer, essa coisa era escrever. Mais que isso, sabia colocar no papel uma idéia com início, meio e fim, sem muitos erros de concordância ou ortografia. Já sabia ler e interpretar textos, nas suas linhas e entrelinhas, fruto de uma vivência de nerd pobre, míope e CDF, cuja maior parte do tempo fora da escola ocupava lendo jornais do dia anterior, revistas, bulas de remédio ou conversando com a mãe questões da política local que interferiam no seu emprego de funcionária pública. Eu conhecia os nomes de secretários municipais, vereadores, prefeitos, deputados e outros figurões da política local.

Da necessidade nasceu o fascínio pela profissão. Todo dia uma pauta diferente. Novos conhecimentos e desafios à curiosidade. Entrevistas! Ah, como eu tremia na primeira vez que entrevistei alguém ao telefone(!). Dois anos e meio depois eu recebera um convite para trabalhar na assessoria de imprensa de um grande sindicato na região. Nessa época eu já estava matriculado na faculdade de jornalismo, que resolvi fazer depois de abandonar duas matrículas em universidades públicas — Engenharia Elétrica e Ciência da Computação –, por descobrir que provavelmente conhecimentos tão específicos não seriam suficientes para aplacar minha curiosidade por temas tão diversos.

Foi mesmo na faculdade que a opinião contra a obrigatoriedade do diploma tornou-se filosófica. Os dois primeiros anos em comum com publicidade e propaganda, e relações públicas, com professores de boa vontade e conhecimento, mas em geral distanciados do mercado, foram um balde de água fria. Nos anos finais, da opção de fato por jornalismo, vivi um pouco mais de dinamismo, sobretudo nas técnicas específicas para cada mídia — jornal impresso, rádio e TV. Elas ajudaram a revigorar em parte o gosto pela formação. Ainda assim, pesou contra a constatação de que boa parte dos colegas sairia da faculdade com um diploma debaixo do braço, mas nenhuma noção de como organizar suas próprias idéias, ou os relatos dos fatos, para apresentá-los de forma compreensível, imparcial ou não, conforme o caso. E, para piorar, não havia aval das entidades de classe para a prática do estágio, por receio dos noviços ocuparem postos de jornalistas formados nas redações. Como se isso já não ocorresse ou fosse um problema exclusivo do jornalismo.

O gosto por ciências em geral, sobretudo, e a filosofia nerd de buscar uma maior profundidade no conhecimento de tudo quanto me interesso (e o leque é bem razoável), ao longo dos anos contribuíram para solidificar a certeza de que conhecer as técnicas não impedem o jornalista de escrever bobagens homéricas. Muitas vezes um desserviço à informação, noutras, pior, um risco à sociedade.

Com a Internet e a Era da Informação, as coisas se complicaram um pouco. Blogs e blogueiros, interação, informação sob demanda e em tempo real começaram a promover, gradativamente, a obsolescência dos veículos tradicionais. Sim, eles estão se tornando rapidamente ultrapassados. Assim como está se tornando rapidamente obsoleta a profissão de jornalista, ao menos como a conhecemos. Veículos e profissionais (diplomados ou não!), com experiência inegável e um bocado de incentivo da conjuntura, estão buscando se adaptar à mudança. Os jornais abrem suas páginas na Internet a comentários, tal qual o fazem, desde que nasceram, os blogs. As TVs passam a exibir imagens captadas por celulares de telespectadores que estavam no local no exato momento da informação. Os podcasts começam a pressionar as rádios convencionais, espremidas entre o fascínio da imagem e a morosidade do impresso, mas sem a profundidade e o conhecimento de causa dos “podcasters” especializados.

Se quero dizer com isso que veículos e jornalistas vão acabar? De forma alguma. Vão, sim, ser superados nos modelos tais quais nos acostumamos com eles. Darão origens a outras formas de comunicação e comunicadores. E esses comunicadores, não precisarão de diploma? Bem, precisarão sim dominar as técnicas desse “novo jornalismo” que está surgindo. Mas, mais que isso, precisarão conhecer muito bem DAQUILO que falam e escrevem. Sob esta ótica, a formação para saber COMO falar e escrever é meramente técnica; perfeitamente assimilável num curso de duração reduzida, de habilitação.

Atualmente, a grande maioria das faculdades enrola seus alunos durante dois anos administrando conhecimentos que, na prática, quando muito, os preparam para falar e escrever SOBRE comunicação. E não digo PENSAR a comunicação. Nem mesmo corrigem deficiências elementais, que estão vinculadas às evidentes limitações da educação básica e ensino médio no Brasil. Não é à toa que a maioria dos veículos tem um manual próprio de redação para garantir o exercício do bom português no dia-a-dia dos profissionais.

Neste contexto, a formação especializada na área de afinidade ou interesse é — e sempre foi — o diferencial do bom jornalista. E as redações estão cheias deles sim. Para melhor abordar a economia, cursaram Economia. Para falar com propriedade de política, estudaram História e Ciências Sociais. Para falarem sobre áreas técnicas, complementaram seus estudos com uma segunda, às vezes terceira faculdade. E mesmo quando não tiveram a oportunidade de estender sua formação, trataram de buscar a especialização auto-didata ou o background cultural necessário para manterem a empregabilidade. O fato de seus diplomas de jornalismo tornarem-se não obrigatórios não os torna dispensáveis. O que os torna imprescindíveis é sua propriedade na abordagem, em primeiro lugar, e depois, aí sim suas técnicas jornalísticas. Há outras profissões que atualmente não exigem diploma, como é o caso de publicidade. Mas em geral os profissionais diplomados ocupam as melhores posições no mercado. Não raro, o diploma veio mesmo depois da posição, como um complemento, uma expansão de horizontes e conhecimentos necessários ao melhor desempenho.

Tomada por este ponto de vista, a decisão do STF — a despeito da superficial argumentação de defensores e opositores da obrigatoriedade do diploma durante o processo — acertou o alvo. A linha estava certa, mas a escrita, torta. Justificar que o incorreto exercício da profissão de jornalista não representa risco à sociedade é passar a borracha em episódios marcantes como a Escola Base ou Ibsen Pinheiro, para citar dois dos mais notórios. Da mesma forma, defender que a obrigatoriedade do diploma ajuda a coibir esse tipo de erro é, se não uma leviandade monumental, no mínimo um ledo engano. A obrigatoriedade representa hoje, isso sim, alguma — e não muita, já que os veículos usam mil e uma estratégias para burlar isso — reserva de mercado para os profissionais. Como tal, ao menos garante algum conhecimento extra ao jornalista, que obrigatoriamente frequenta um curso de nível superior. Mas não garante que este terá o conhecimento apropriado para abordar os assuntos de que vai tratar no dia-a-dia. Nem ao menos que saberá traduzir isso ao seu público, com ética e precisão, usando as ferramentas da linguagem.

Neste cenário, em defesa da liberdade de expressão, direito constitucional, simplesmente exterminar essa reserva de mercado sem debater o cerne da questão é aprofundar o problema. Com a proliferação de cursos de jornalismo (e de muitas outras áreas) de fachada, de faculdades “caça niqueis”, e, pior, sem um plano de recuperação do ensino fundamental e médio, continuaremos a despejar no mercado profissionais despreparados, sem senso crítico, e incapazes de organizar ou expor uma idéia com início, meio e fim. E esta não é uma realidade vivida apenas pelo jornalismo. Infelizmente, todas as áreas do conhecimento humano no Brasil padecem do mesmo mal. E esse diagnóstico soa até como um consolo para os futuros novos jornalistas diplomados, já que, na prática, é essa deficiência que ainda mantém sua empregabilidade nas redações.

  • novembro 2017

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