Fotomontagem: Dilma, Marina e Aécio

Uma disputa de incertezas

A morte do candidato à presidência Eduardo Campos (PSB), adicionou o elemento tragédia a uma disputa eleitoral por si só repleta de incertezas e pontos cegos. No cenário nacional, um caldo peculiar de manifestações de ódio e extremismos, sobretudo externados nas redes sociais, permeava desde o início a polarização entre as chapas do PSDB e do PT. No eixo Sul-Sudeste, escorada numa espécie de classe média raivosa — auto intitulada “apolítica” ou “apartidária” — desde as manifestações de rua de junho de 2013, a situação chegou mesmo a causar uma forte tendência de queda nas posições da candidata petista à reeleição, Dilma Rousseff.

 

A mesma propagação em redes sociais causou algum estrago no desempenho do candidato tucano Aécio Neves, depois da vinculação de seu nome à construção de um aeroporto público numa propriedade de sua família em Minas Gerais.
E se por um lado as posições antagônicas dentro de sua própria chapa podem representar um empecilho ao incremento da simpatia à candidata Marina Silva (PSB) junto aos financiadores de campanha e boa parte do eleitorado antenado com as questões da política (sobretudo as que envolvem a economia), parte dessa massa tecnológica que se enxerga “apolítica” (embora milite raivosamente na internet), talvez tenda a buscar identidade com Marina, acentuando seu potencial como terceira via e as chances de uma disputa só entre mulheres no segundo turno.

Nos três casos, a rede parece só ter influência positiva no último caso. Seu efeito muito mais negativo, no entanto, deve ser considerado nas construções das campanhas digitais da candidata do PT e do PSDB. E aqui é o caso de diferenciar o potencial evangelizador da mídia internet da mídia tradicional, representada pelo Rádio e pela TV. Se Marina leva vantagem nas redes, perde território na propaganda tradicional: menos tempo e antagonismos mais difíceis de explicar. Ainda assim, é provavelmente nestas mídias que vai se consolidar o principal campo de batalha para a definição das eleições.

Um cenário parecido acontecerá na disputa pelo governo do estado de São Paulo em relação à influência das mídias tradicionais e da Internet. A diferença é que, neste caso, é um tanto curioso o comportamento do eleitorado. Embora o estado atravesse a maior crise hídrica de sua história, com alegações bastante palpáveis de responsabilidade do governo do estado na falta de planejamento e obras preventivas que poderiam evitar um racionamento, as pesquisas mostram um inabalável Geraldo Alckmin neste exato momento bem à frente na preferência dos eleitores.

Quem mais perde no debate de políticas, propostas e no próprio entendimento do eleitorado sobre seu papel são os candidatos ao senado. Com exposição meramente figurativa nas campanhas televisivas, relegados a um total segundo plano nas estratégias estaduais, candidatos e candidatas ao Senado terão de qualquer forma uma tarefe difícil a encarar e, no seu caso, a Internet deverá se transformar numa ferramenta importante no próximo mês e meio que falta para a eleição.

O papel da Internet nas proporcionais

Já nas eleições “proporcionais”, de deputados estaduais e federais, a disputa é ferrenha e há tendência de supervalorização do potencial das redes sociais, o que é um erro bem grande. De fato, a ausência do candidato na Internet denota obsolescência e descompromisso com o eleitor. Sua presença digital é uma obrigação. Mas isso não garante votos. Ma média, e, no máximo, faz com que o candidato não perca votos. Isso porque a pasteurização dos mecanismos através dos quais os candidatos estão participando das redes, sem apresentar projetos, sem dialogar de fato com os eleitores, e meramente postando ações de agenda e fotos com apoiadores, faz com que a mídia, novamente, não seja o melhor elemento para a escolha dos eleitores.

Quando a presença do candidato em ferramentas como Facebook, Twitter, Instagram não se ancora em um site realmente informativo, com as propostas do candidato, seu histórico e seus compromissos, tanto pior o desempenho. Acabam sobressaindo-se aqueles que aliam as duas coisas — redes sociais e sites informativos –, amplamente ligados a uma ação de corpo-a-corpo que considera a sinergia com as demais ações. E poucos estão perseguindo (e menos ainda conseguindo) esse objetivo.

Conta pontos se o candidato não fizer por merecer entrar em alguma lista dos que mais emporcalham as cidades, espalhando placas e cavaletes de forma irregular ou exagerada. Nestes casos, de novo, a agressividade da rede será, para o seu desempenho, mais danosa que qualquer benefício que eventualmente ele pudesse extrair da presença digital.

Mas o verdadeiro calvário para alguns candidatos a deputados vem da soma de duas relativas novidades nesta eleição: o maior uso da rede, essa Internet visceral, virulenta e raivosa, e a lei da Ficha Limpa. Essa última, ao contrário do efeito esperado — de limpeza das chapas para evitar a eleição de candidatos com pendências na Justiça — apenas acentuou o imbróglio, incapaz de impedir candidaturas juridicamente inviáveis, que serão anuladas até o final, ou, pior, após o pleito. Juntos, os dois mecanismos viraram arsenal de uma guerra de boatos que se apoia nas redes sociais, na desinformação dos eleitores e dos próprios candidatos e assessorias.

Ruim, de qualquer forma, para o novo cidadão/eleitor da era digital, induzido ao erro dentro e fora da rede…