O folclore (e o machismo) brasileiro criou, no passado, uma figura de linguagem discriminatória que vez ou outra se pode ouvir até nos dias atuais, apesar da Lei Maria da Penha: é a “mulher de malandro”. Eternizada na voz de Francisco Alves, a mulher de malandro sofria nas mãos do parceiro, do qual não conseguia se separar. Era exposta a toda sorte de humilhações. Naquela época, malandro tinha uma conotação diferente. Não era bandido. Era o preguiçoso, que não provia o sustento da casa. O boêmio que curtia a vida nos bares; homem de muitas mulheres, que não cumpria com suas obrigações para com o lar ou a família. E, apesar disso, suas parceiras, oficiais ou amantes, não conseguiam deixá-lo.

É impossível observar os brados de revolta e os pedidos de anulação das eleições de Osasco (SP) sem trazer à lembrança essa figura caricata da nossa história. Grupos de cidadãos estão sendo colocados na linha de frente de uma batalha inglória e fatalmente perdida. Vítimas da falta de informação – ou pior, de manobras de desinformação – os eleitores frustrados pela derrota de seus candidatos estão caindo numa estratégia esdrúxula que não tem o menor sentido. Isso porque os pedidos estão absolutamente distantes de preencher quaisquer requisitos legais para a determinação de realização de um segundo turno ou da anulação das eleições. Nem mesmo chegou próximo de configurar-se o conhecido campeão dos protestos pré-eleitorais nas mídias sociais, o quase sobrenatural “50% + 1” dos votos nulos que, em tese, demandaria a realização de novas eleições.

Ainda assim, os eleitores estão embarcando em teses absurdas e sem respaldo algum, que se originam não de uma, mas de várias das coligações derrotadas. Enquanto isso, desvia-se o foco da verdadeira herança que esta eleição deixará para o Brasil: não há mais espaço para maus administradores, de gestão duvidosa ou onerosa ao erário público. No primeiro ano de aplicação da Lei da Ficha Limpa, legislação de iniciativa popular, está se criando uma jurisprudência que deverá nortear não apenas as campanhas eleitorais de agora em diante, mas a própria formulação de chapas e a escolha dos candidatos pelos partidos e coligações nas próximas eleições.