Richard Stallman

Richard Stallman, por Gisleh, no Flickr

Quando Richard Stallman, guru xiita do software livre, diz que usar o Chrome OS (ou qualquer sistema onde todos os dados do usuário estejam nas núvens) é uma estupidez, talvez ele não tenha dito um completo exagero. A maior prova disso é provavelmente a perseguição do governo norte americano ao site Wikileaks e seu fundador, Julian Assange.

Mas o que tem a ver o Wikileaks e a computação na nuvem? Nada. Os documentos, que têm cópia offline, físicas, podem migrar de um servidor para outro, podem ganhar centenas, talvez milhares de “espelhos”, justamente porque não se apoiam numa solução centralizada, do tipo caixa preta.

Em última análise, é esse tipo de solução que o Google – ou qualquer outro sistema de “nuvem” – vai prover. E não há garantias de que um sistema desse, em caso de contenda legal, não sucumbirá à pressão de um governo ou de alguma corporação obscura.

Wikileaks não foi apagado ou bloqueado, mas passou perto. A Amazon cedeu à pressão do governo e o expulsou de seus servidores. Visa, Mastercard e PayPal também sucumbiram e bloquearam o acesso da organização às suas contas.

Claro, não é todo usuário, empresa ou internauta que tem que se preocupar com isso. A maioria dos internautas não está desenvolvendo atividades à margem da lei ou transitando conteúdo legalmente discutível. Mas aí, mais uma vez, a iniciativa Wikileaks mostra que o “legalmente discutível”, “liberdade de informação” e “liberdade de expressão” são conceitos bastante subjetivos, sobretudo quando expõem as mazelas, os equívocos e as ações obscuras do poder, político e econômico.

Wikileaks não é uma grande e poderosa corporação. Começou a partir da iniciativa pessoal de um usuário da rede e ganhou o mundo. Mas lida com uma informação tão sensível que está sendo capaz de incomodar e reescrever a história das relações internacionais.  Antes de transformar-se num fenômeno da Era Digital, era apenas mais um site na Internet.

A fronteira entre o ordinário e o que vai ser considerado uma ameaça pelo governo – qualquer governo – nunca foi realmente clara. Em 1991, um criptógrafo e cientista da computação chamado Phil Zimmermann criou um programa que o faria virar inimigo de Estado nos EUA: Pretty Good Privacy, ou PGP. Por causa do programa, que utiliza criptografia assimétrica, foi alvo de processos do gorverno norte americano até 1996. A justificativa legal era uma proibição à exportação de software criptográfico em vigência nos EUA.

Mas era apenas uma justificativa. O problema real foi que Zimmermann, com seu PGP, colocou ao alcance de quarquer usuário de computador no mundo um mecanismo de criptografia de nível militar. E se ele não tornava impossível a decodificação por parte da NSA ou outro braço governamental, ao menos dificultava bastante. O autor do programa chegou a ser comparado a um terrorista.

Alguma semelhança? Pois é.