Torto por linhas certas...Desde a faculdade, cursada na base do arrocho e do sacrifício, sou contra a exigência do diploma para o exercício da profissão de jornalista. Sim, a minha profissão. Era antes uma opinião mais empírica que filosófica. Afinal, quando precisei de um emprego, meu primeiro, bati na porta de um jornal em minha cidade. Jornal pequeno de fato, mas o maior da região. Era uma vaga de “repórter e redator”. O anúncio estava nas páginas de classificados do próprio veículo. “Paga-se proporcional à capacidade”, dizia; lembro-me até hoje. Aos 17 anos, eu nem sabia que era preciso um diploma. Na entrevista, uma senhora muito simpática e falante — a editora — depois de perguntar minha idade e retrucar que “obviamente você não é formado, né?”, como se precisasse da resposta, deu-me a chance de escrever um texto. Ao me sentar à frente da máquina de escrever (sim!), confessei que também não tinha curso de datilografia. Com a paciência de um editor com um jornal diário para fechar e uma redação composta de apenas mais dois profissionais, ela ainda teve que explicar que aquilo que eu faria era um “copydesk”, “que é reescrever um texto com suas palavras”, e me mostrou o que era e como usar aquela folha pautada, a lauda, que até hoje é parâmetro de produção de texto em algumas redações (obviamente, convertida em “número de caracteres” do editor de textos). Também me lembro do assunto do “copydesk”: uma matéria do jornal sindical “Folha Bancária” onde informava-se que prosseguiam sem acordo as negociações em torno da campanha salarial dos bancários. Eu precisei de vinte minutos para escrever uma lauda. Acho que ela percebeu que os primeiros dez minutos gastei aprendendo a usar a máquina de escrever. Quando entreguei, incrédula, ela ironizou: “mas você copiou de onde? Trouxe pronto?”.

O texto foi publicado no dia seguinte e eu fiquei com a vaga, disputada com outras duas jornalistas formadas. O fato é que se havia uma coisa que eu sabia fazer, essa coisa era escrever. Mais que isso, sabia colocar no papel uma idéia com início, meio e fim, sem muitos erros de concordância ou ortografia. Já sabia ler e interpretar textos, nas suas linhas e entrelinhas, fruto de uma vivência de nerd pobre, míope e CDF, cuja maior parte do tempo fora da escola ocupava lendo jornais do dia anterior, revistas, bulas de remédio ou conversando com a mãe questões da política local que interferiam no seu emprego de funcionária pública. Eu conhecia os nomes de secretários municipais, vereadores, prefeitos, deputados e outros figurões da política local.

Da necessidade nasceu o fascínio pela profissão. Todo dia uma pauta diferente. Novos conhecimentos e desafios à curiosidade. Entrevistas! Ah, como eu tremia na primeira vez que entrevistei alguém ao telefone(!). Dois anos e meio depois eu recebera um convite para trabalhar na assessoria de imprensa de um grande sindicato na região. Nessa época eu já estava matriculado na faculdade de jornalismo, que resolvi fazer depois de abandonar duas matrículas em universidades públicas — Engenharia Elétrica e Ciência da Computação –, por descobrir que provavelmente conhecimentos tão específicos não seriam suficientes para aplacar minha curiosidade por temas tão diversos.

Foi mesmo na faculdade que a opinião contra a obrigatoriedade do diploma tornou-se filosófica. Os dois primeiros anos em comum com publicidade e propaganda, e relações públicas, com professores de boa vontade e conhecimento, mas em geral distanciados do mercado, foram um balde de água fria. Nos anos finais, da opção de fato por jornalismo, vivi um pouco mais de dinamismo, sobretudo nas técnicas específicas para cada mídia — jornal impresso, rádio e TV. Elas ajudaram a revigorar em parte o gosto pela formação. Ainda assim, pesou contra a constatação de que boa parte dos colegas sairia da faculdade com um diploma debaixo do braço, mas nenhuma noção de como organizar suas próprias idéias, ou os relatos dos fatos, para apresentá-los de forma compreensível, imparcial ou não, conforme o caso. E, para piorar, não havia aval das entidades de classe para a prática do estágio, por receio dos noviços ocuparem postos de jornalistas formados nas redações. Como se isso já não ocorresse ou fosse um problema exclusivo do jornalismo.

O gosto por ciências em geral, sobretudo, e a filosofia nerd de buscar uma maior profundidade no conhecimento de tudo quanto me interesso (e o leque é bem razoável), ao longo dos anos contribuíram para solidificar a certeza de que conhecer as técnicas não impedem o jornalista de escrever bobagens homéricas. Muitas vezes um desserviço à informação, noutras, pior, um risco à sociedade.

Com a Internet e a Era da Informação, as coisas se complicaram um pouco. Blogs e blogueiros, interação, informação sob demanda e em tempo real começaram a promover, gradativamente, a obsolescência dos veículos tradicionais. Sim, eles estão se tornando rapidamente ultrapassados. Assim como está se tornando rapidamente obsoleta a profissão de jornalista, ao menos como a conhecemos. Veículos e profissionais (diplomados ou não!), com experiência inegável e um bocado de incentivo da conjuntura, estão buscando se adaptar à mudança. Os jornais abrem suas páginas na Internet a comentários, tal qual o fazem, desde que nasceram, os blogs. As TVs passam a exibir imagens captadas por celulares de telespectadores que estavam no local no exato momento da informação. Os podcasts começam a pressionar as rádios convencionais, espremidas entre o fascínio da imagem e a morosidade do impresso, mas sem a profundidade e o conhecimento de causa dos “podcasters” especializados.

Se quero dizer com isso que veículos e jornalistas vão acabar? De forma alguma. Vão, sim, ser superados nos modelos tais quais nos acostumamos com eles. Darão origens a outras formas de comunicação e comunicadores. E esses comunicadores, não precisarão de diploma? Bem, precisarão sim dominar as técnicas desse “novo jornalismo” que está surgindo. Mas, mais que isso, precisarão conhecer muito bem DAQUILO que falam e escrevem. Sob esta ótica, a formação para saber COMO falar e escrever é meramente técnica; perfeitamente assimilável num curso de duração reduzida, de habilitação.

Atualmente, a grande maioria das faculdades enrola seus alunos durante dois anos administrando conhecimentos que, na prática, quando muito, os preparam para falar e escrever SOBRE comunicação. E não digo PENSAR a comunicação. Nem mesmo corrigem deficiências elementais, que estão vinculadas às evidentes limitações da educação básica e ensino médio no Brasil. Não é à toa que a maioria dos veículos tem um manual próprio de redação para garantir o exercício do bom português no dia-a-dia dos profissionais.

Neste contexto, a formação especializada na área de afinidade ou interesse é — e sempre foi — o diferencial do bom jornalista. E as redações estão cheias deles sim. Para melhor abordar a economia, cursaram Economia. Para falar com propriedade de política, estudaram História e Ciências Sociais. Para falarem sobre áreas técnicas, complementaram seus estudos com uma segunda, às vezes terceira faculdade. E mesmo quando não tiveram a oportunidade de estender sua formação, trataram de buscar a especialização auto-didata ou o background cultural necessário para manterem a empregabilidade. O fato de seus diplomas de jornalismo tornarem-se não obrigatórios não os torna dispensáveis. O que os torna imprescindíveis é sua propriedade na abordagem, em primeiro lugar, e depois, aí sim suas técnicas jornalísticas. Há outras profissões que atualmente não exigem diploma, como é o caso de publicidade. Mas em geral os profissionais diplomados ocupam as melhores posições no mercado. Não raro, o diploma veio mesmo depois da posição, como um complemento, uma expansão de horizontes e conhecimentos necessários ao melhor desempenho.

Tomada por este ponto de vista, a decisão do STF — a despeito da superficial argumentação de defensores e opositores da obrigatoriedade do diploma durante o processo — acertou o alvo. A linha estava certa, mas a escrita, torta. Justificar que o incorreto exercício da profissão de jornalista não representa risco à sociedade é passar a borracha em episódios marcantes como a Escola Base ou Ibsen Pinheiro, para citar dois dos mais notórios. Da mesma forma, defender que a obrigatoriedade do diploma ajuda a coibir esse tipo de erro é, se não uma leviandade monumental, no mínimo um ledo engano. A obrigatoriedade representa hoje, isso sim, alguma — e não muita, já que os veículos usam mil e uma estratégias para burlar isso — reserva de mercado para os profissionais. Como tal, ao menos garante algum conhecimento extra ao jornalista, que obrigatoriamente frequenta um curso de nível superior. Mas não garante que este terá o conhecimento apropriado para abordar os assuntos de que vai tratar no dia-a-dia. Nem ao menos que saberá traduzir isso ao seu público, com ética e precisão, usando as ferramentas da linguagem.

Neste cenário, em defesa da liberdade de expressão, direito constitucional, simplesmente exterminar essa reserva de mercado sem debater o cerne da questão é aprofundar o problema. Com a proliferação de cursos de jornalismo (e de muitas outras áreas) de fachada, de faculdades “caça niqueis”, e, pior, sem um plano de recuperação do ensino fundamental e médio, continuaremos a despejar no mercado profissionais despreparados, sem senso crítico, e incapazes de organizar ou expor uma idéia com início, meio e fim. E esta não é uma realidade vivida apenas pelo jornalismo. Infelizmente, todas as áreas do conhecimento humano no Brasil padecem do mesmo mal. E esse diagnóstico soa até como um consolo para os futuros novos jornalistas diplomados, já que, na prática, é essa deficiência que ainda mantém sua empregabilidade nas redações.