Já faz um tempo resolvi fazer minha mudança do mundo do código proprietário para o código livre. Do Windows para o Linux.
Iniciante, com um equipamento absolutamente obsoleto – então um notebook ThinkPad 600 (PII, 300mhz, e apenas 128mb de RAM + HD de 6gb ) – optei pela já famosa distribuição (ou distro, como gostam os iniciados 🙂 ) brasileira Kurumin, em uma experiência que mencionei num texto anterior.
Na época, foi uma opção mais prática que ideológica. No Thinkpad, comprado usado, o Win98 original estava longe de ser estável. E chegou um momento em que precisei rodar um PostgreSQl, algo bem custoso para o Win98.

Daí tentei um tempo o XP, que até rodou, estável e tudo, mas consumia ferozmente os recursos da máquina em troca de firulas que deveriam facilitar meu dia-a-dia, como a previsualização de imagens nos ícones, melhorias no acesso de rede, compatibilidade de hardware. Dificilmente abria um programa, qualquer que fosse, em menos de trinta segundos. Alguns, a espera chegava a ser de dois minutos.
Como eu já acompanhava, por curiosidade, o desenvolvimento do Kurumin, baixando e testando liveCDs a cada nova versão, decidi largar de vez o Windows.
O processo de migração, culturalmente falando, não é lá muito simples. A gente fica tão acostumado a mexer no Windows – todo computador que comprei já vinha com ele, a propósito – que tende a ficar preguiçoso com um sistema diferente. Minha sorte é que a curiosidade e vontade de aprender informática sempre foram bem maiores que a preguiça. E ainda havia alguma ajuda da necessidade mesmo.
Mas me surpreendi com a facilidade de instalação e detecção do hardware. Duas coisas apenas não funcionaram de pronto: o modem e a placa de som. Alguns tendem a achar que isso por si só já é um problemão, mas vale lembrar que eu não tinha nenhum driver adicional para fazer a “sintonia fina” do equipamento. Nos esquecemos que, no Windows, depois de instalar o sistema em si, na maioria das vezes é preciso usar discos adicionais de drivers dos fabricantes para fazer as coisas realmente funcionarem (e no caso daquele notebook, todo o hardware precisou disso, até mesmo o monitor!).
A placa de som e modem no entanto, realmente deram trabalho. E esta talvez seja a grande dificuldade do usuário comum ao migrar para o Linux: quando nos deparamos com hardware muito específico, o que era o caso, encontrar drivers e colocá-los para rodar demanda perder algum tempo em pesquisa de fóruns, domínio de inglês e tentativas… muitas tentativas. Mas terminado o processo, eu tinha em mãos uma máquina muito mais rápida, com as mesmas funcionalidades práticas de um WinXP, mas com software totalmente “opensource”, ou código aberto.
De lá prá cá, fiz um upgrade de hardware (do Thinkpad 600 para um Acer 3004NLCi, CPU AMD Sempron 3100+, 256MB, 40GB, WiFi) e de sistema (do Kurumin 5 para o 6). De novo, problemas com hardware específico: neste caso, o sistema de monitor de energia (ACPI), que, não por defeito do Linux, mas relaxo do desenvolvedor do equipamento, entra em conflito com a maioria das distros Linux existentes, exceto talvez aquelas que já tenham incorporado alguma correção extra.
De volta para a prancheta ou seja, o sistema de “pesquisa de fóruns, domínio de inglês e tentativas…”, encontrei uma solução que rendeu mesmo um artigo publicado no Guia do Hardware, já que serve de ponto de partida para outros usuários com problemas semelhantes. Essa prática, aliás, de disponibilizar tutoriais e “passos-a-passos” é outra coisa marcante na comunidade usuária de Linux. Não que ela não exista para o Windows. Em todo campo sempre tem gente disposta a colaborar. Mas esse sistema se vale de toda sua força e eficiência nos fóruns de software livre, porque a gente percebe que cada nova solução é tratada individualmente, pelo autor, como uma conquista pessoal, o que reforça a vontade de compartilhar e, porque não, exibir o troféu 😉
Nesse meio tempo, andei testando outras distros. Já tenho um DSL, de “Damn Small Linux” – algo como “realmente muito pequeno Linux” num pendrive (que já salvou o micro antigo de uma amiga que insistia em não aceitar a reformatação do disco e particionamento pelos métodos tradicionais do Windows), e, no micro de casa, rodando em “dual boot” em plataforma de testes (num segundo hd, recuperado com ferramentas de código aberto) o novíssimo Ubuntu 6.06. Aliás, é de onde estou postando este.
Antes dele, já passei por outras distros, como o PCLinuxOS, a variação do Ubuntu que usa o KDE como ambiente gráfico, o Kubuntu, entre outras que só usei “live CD” para testes. Então resolvi ampliar o relato que comecei lá no texto anterior, sobre a migração para Linux.
De pronto, é inevitável a comparação entre o Ubuntu e o Kurumin, talvez as duas distros mais famosas entre brasileiros. E apesar do que li e ouvi a respeito da estabilidade e praticidade do Ubuntu, encontrei mais problemas na configuração dele do que na do Kurumin. Curioso porque, apesar da ajuda da comunidade, o Kurumin baseia-se praticamente no trabalho de uma pessoa, seu mantenedor, o Carlos Morimoto, enquanto o Ubuntu tem atrás de si um grupo de desenvolvedores e colaboradores do mundo todo. Ambos são baseados no Debian, mas a solução dos “Ícones Mágicos” adotada no Kurumin, modularizando a “sintonia fina” do sistema, a instalação de hardware e software específico, acaba facilitando bastante a vida do usuário, iniciante ou não.
Já no Ubuntu, quando o próprio sistema não faz a configuração de pronto, localizar a solução pode não ser tarefa das mais simples para quem ainda não está familiarizado com o Linux. Um exemplo que ocorreu comigo foi a configuração do acesso à Internet. Na versão mais atual do Ubuntu, enquanto eu não abri um terminal para digitar o comandinho debian “netcardconfig”, nada de conseguir conexão. Outra coisa foi a instalação no hd. Nas três versões beta que testei (duas Ubuntu e uma Kubuntu), tive que atualizar pacotes de nomes estranhos (detectados a partir do log de erro) via apt-get (o prático comando de instalação de programas e atualizações via Internet das distribuições baseadas no Debian) para fazer funcionar o instalador corretamente (correções que foram produzidas nos “releases” diários, depois de relatadas no fórum do Ubuntu, ainda que a associação entre os relatos lá e os problemas que encontrei no meu sistema não fosse tão evidente).
No geral, o acabamento gráfico do Ubuntu (ou do Kubuntu), na minha opinião, parece superior ao do Kurumin. Para o usuário iniciante, no entanto, o Kurumin traz a vantagem de ter uma disposição de menus e recursos bastante similar ao Windows (uma característica inerente às distribuições que usam o KDE como gerenciador de janelas, como o Kubuntu), o que lhe confere alguma vantagem ao reduzir o “choque”…
Mas talvez a maior vantagem da dupla Ubuntu/Kubuntu (e variações) seja o recurso das atualizações automáticas. Como baseia-se num sistema de “repositórios” (servidores de pacotes de softwares Linux) próprios, tira proveito da possibilidade de disponibilizar os pacotes mais atuais e (na maioria das vezes) estáveis de cada recurso do sistema ou programa instalado. É diferente do Kurumin, onde a atualização é feita usando os repositórios oficiais do Debian ou repositórios paralelos, e, dependendo da configuração – se usando pacotes estáveis, em teste ou instáveis – uma atualização pode ser potencialmente perigosa para a estabilidade do sistema. Claro, isso quando se procura a última versão de tudo, porque normalmente não há muito risco numa atualização a partir de um repositório estável. Mas, na melhor das hipóteses, é preciso se contentar com uma versão já obsoleta em relação ao que está disponível como sendo “estável” segundo o próprio desenvolvedor do software.
E a versão 6.06 do Ubuntu leva a facilidade da atualização ao próximo nível, num sistema automático muito similar ao do OS proprietário, que avisa o usuário sobre atualizações disponíveis. No entanto minha sorte ao usá-lo foi já conhecer alguma coisa em Linux: a primeira atualização detonou o “dual boot”, e tive que editar manualmente o aplicativo de inicialização do Ubuntu (bootloader), o Grub. Aliás, toda vez que atualiza o coração do linux, o kernel, ele simplesmente reescreve o bootloader e preciso corrigir na unha.
Outros comportamentos estranhos que encontrei na minha instalação do Ubuntu foram o horário maluco do sistema que, se selecionado pelo instalador, deixa o hardware com o horário GMT e subtrai 3 (-3GMT)para dar a hora certa no sistema; além da inexplicável queda da conexão à Internet depois de um tempo de inatividade. Deve ser alguma configuraçãozinha simples, mas por hora, até eu descobrir, um fuso horário diferente e o terminal somado a alguns comandos manuais (poff -a, pon dsl-provider) têm quebrado o galho.
Analisadas as diferenças entre as distros Linux em si, acho oportuno ressaltar as dificuldades que tive em relação a algumas aplicações específicas para elas e o Windows. Hoje, o notebook, usado em ambiente de produção mesmo, tem o “emulador de Windows” (é quase isso, mas diferente :)) Wine para poder rodar o Internet Explorer. E como isso deu trabalho no Kurumin! Por peculiaridades inerentes ao funcionamento e forma de desenvolvimento do Wine em si, mas deu trabalho! E seu emprego se dá basicamente por causa do site MAL PROJETADO, do Unibanco, que utilizo com freqüência e OBRIGA o usuário a acessar via Internet Explorer para funcionar. Já me deparei com mais um ou outro site assim (alguns não funcionam se você não tiver Windows Media Player, por exemplo), mas esses posso simplesmente boicotar. Já o do banco seria um pouco mais complicado, embora perfeitamente plausível, se a conta não fosse antiga…
Além destes, apenas outros dois programas proprietários e bastante específicos para minha área profissional ainda me fazem falta. As alternativas livres, o Inkscape e o Scribus, embora promissoras, devem demorar um pouco a se consolidarem como alternativas reais. Ou porque não têm a mesma compatibilidade com os formatos proprietários largamente utilizados no mercado (diferentemente da suite OpenOffice, por exemplo – infelizmente, nem sempre os formatos padrão são os estabelecidos pelo segmento), caso de ambos, ou porque que trazem pequenos (e muitos) “bugs” que dificultam sua adoção definitiva em ambiente de produção (caso específico do Scribus).
No mais, outras linhas de trabalho em que atuo, da edição de textos, planílhas e apresentações, ao desenvolvimento Web, tudo pode ser (bem) feito em software livre. Algumas vezes software que é instalado junto com a própria distribuição Linux ou facilmente acrescentado depois, pela própria rede, com o apt-get ou soluções similares.
Bom, diante de tudo isso, minha escolha pessoal (pessoal, repito) para um sistema a ser usado no dia-a-dia como alternativa ao sistema operacional proprietário, e minha sugestão para o usuário iniciante que queira fazer essa migração, ainda é o Kurumin. Com um sistema de detecção de hardware bem eficiente, um instalador que é fruto da fusão de várias peças de código bem produzidas, além das próprias melhorias feitas por seu mantenedor, o Carlos Morimoto, com apoio de toda a comunidade de usuários do Kurumin, essa distribuição brasileira desconstrói a imagem “coisa do outro mundo” que o hábito de usar um sistema proprietário costuma deixar num usuário que ainda não conhece o mundo do software livre…
E me fez lembrar o espanto do meu irmão, que acaba de adquirir um notebook usado (que deve receber uma instalação novinha do Linux nos próximos dias): “Ué, mas parece a mesma coisa… tem janelas igual ao outro! E abre os programas com o mouse também! Eu achei que tinha que digitar todos os comandos…” 🙂